Óbidos, a capital literária de Portugal

Óbidos, distante 80 km ao norte de Lisboa, está acostumada a receber turistas interessados em literatura. Essa é uma das marcas da vila medieval acomodada dentro das muralhas de um castelo onde vivem cerca de 80 pessoas. Mas no final de setembro Óbidos viu sua população se multiplicar, o número de turistas aumentar ainda mais e suas ruas se transformarem ao abrigar, pelo segundo ano, o Festival Literário Internacional de Óbidos (Folio).

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O evento reúne autores, editores e leitores de vários países, mas a participação dos originários de língua portuguesa é notadamente mais forte. Com livre inspiração na brasileira Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, o Folio começou em 2015.

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“O primeiro ano foi um ano de experimentação no sentido de não querermos fazer só mais um festival literário com aquilo tradicional dos eventos desse tipo. Era um projeto arriscado e de experimentação. Percebemos, no ano passado, que poderíamos manter a estrutura base do festival e implementar novas atividades”, conta Anabela Mota Ribeiro, curadora do Folio Folia, um dos braços do festival.

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A segunda edição do Folio foi dividida em braços direcionados para áreas específicas: o Folio Autores, focado no lançamento de livros e conversas com os escritores; o Folio Ilustra, direcionado para a literatura desenhada; o Folio Mais, que promove conversas, palestras e shows; e o Folio Folia, focado em promoção de aulas sobre temas específicos da literatura.

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Nos dias do festival, que em 2016 foi entre de 22 de setembro a 2 de outubro, a “população” da pequena vila se multiplica. Agentes culturais de Portugal e de outros países, com destaque para originários de países de Língua Portuguesa, se mudam para Óbidos durante o evento. Grupos de turistas não param de entrar pela porta principal, com destaque para uma grande quantidade de excursões da terceira idade, e em cada bar, adega ou padaria o assunto é a literatura.

Utopia

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O tema do Folio deste ano foi a utopia. E ao chegar na vila medieval o visitante já se sente como se estivesse passando por um portal para o mundo literário. Óbidos se transforma na capital da literatura nos dias do festival. Ao entrar pela porta medieval que dá acesso ao interior das muralhas nos dias do Folio o visitante é imediatamente absorvido por um clima favorável para descobrir novos autores, desbravar as prateleiras atrás daquele clássico ou desfrutar da literatura de maneiras diferentes nas atividades do evento.

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Já pensou em receber uma massagem com leitura? Na ambulância literária, uma das atrações do Folio, o visitante é convidado a ler uma obra de sua preferência enquanto recebe uma relaxante massagem. Nesta edição um chef de cozinha surpreendeu os visitantes ao unir literatura e gastronomia de uma maneira completamente inusitado: ele criou uma receita na qual um dos ingredientes é um livro. Sim, é possível comer um livro no Folio.

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Se o objetivo é menos literal e mais artístico, quem visita o Folio pode aproveitar os shows diários ou visitar os diversos locais de exposições. Todos os prédios onde há atividades do festival estão identificados pela letra F. A dupla brasileira Lívia e Fred, exponentes da nova geração de cantores brasileiros, foi uma das atrações deste ano. Convidados pelo festival, eles montaram um repertório especial para falar sobre utopia, o tema central do Folio deste ano, e tocaram de Chico Buarque a Zeca Afonso.

Portugal e Brasil no Folio

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“O Folio é um ponto de encontro entre Brasil e Portugal e vai continuar no futuro”, disse o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, ao visitar o festival. Ele respondia sobre as relações culturais entre os dois países, cuja força fica muito evidente no evento pela grande presença de escritores brasileiros.

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Anabela Mora Ribeiro explica que, além da flagrante e assumida inspiração na Festa Literária de Paraty, a presença de diversas atrações brasileiras no Folio se dá pela proximidade das culturas e pela experiência pessoal e profissional de seus curadores. Ela própria estuda a obra de Machado de Assis. O outro curador, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, viveu no Rio de Janeiro.

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“Eu acho que as referências que nós temos da cultura brasileira são muito musicais. Caetano Chico, Gil, Tom Jobim… muita poesia, Vinicius, Dummont…”, comenta Anabela. O comentário da curadora revela uma situação flagrante e comprovada, mas também indica que a forte presença da música brasileira em Portugal é incompatível com a presença da literatura do Brasil.

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“Há uma certa resistência”, comenta o escritor brasileiro Afonso Borges, criador do projeto “Sempre um papo”, que convida escritores internacionais para debates abertos no Brasil. Ele revelou que pretende levar escritores da Comunidade de Países de Língua Portuguesa para as próximas edições do evento.

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O presidente de Portugal, quando perguntado sobre o assunto, respondeu: “não sei se concordo muito”. Marcelo Rebelo de Sousa argumentou que apesar da crise do setor editorial, a edição de autores brasileiros em Portugal atualmente é “como não estava há 40 anos”. “Em Portugal estamos muito atentos ao que se publica no Brasil. Gostamos da literatura brasileira”, disse o presidente.

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Um dos espaços que é um exemplo dessa interação entre Brasil e Portugal é o museu que abriga a exposição de xilogravuras do artista pernambucano J. Borges feitas para a edição do livro “O Lagarto”, que reúne o conto do Nobel de Literatura José Saramago e a arte do brasileiro. A obra foi lançada mundialmente no primeiro dia do Festival de Óbidos.

Óbidos e a literatura

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A vila de Óbidos tem uma relação muito próxima com a leitura, tanto que ostenta o título de cidade literária. São 12 livrarias que oferecem milhares de títulos expostos às vezes em lugares inusitados.

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Na cidade há a intrigante Igreja de São Tiago, onde o altar e a nave deram lugar a prateleiras cheias. Óbidos também abriga um hotel cujas paredes são forradas de livros e a famosa Livraria do Mercado, que mistura uma loja de produtos alimentícios e livraria.

Publicado também no Conexão Luxófona.

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